A exclusão do sistema RTO não foi um movimento súbito, mas o desfecho de um processo de transição que visa a profissionalização total do setor. (Foto: Redes Sociais)
Cesar Alexandre
03/02/2026 - 09:30
Completa-se, nesta semana, exatos 30 dias desde a descontinuidade oficial do sistema de Reserva Técnica Operacional (RTO) nas linhas de transporte público. Desde o início de janeiro, os veículos que operavam sob este regime perderam a autorização legal para circular, marcando uma tentativa do governo de reorganizar a mobilidade urbana sob padrões mais rigorosos de fiscalização e segurança.
A exclusão do sistema RTO não foi um movimento súbito, mas o desfecho de um processo de transição que visa a profissionalização total do setor. Sem o amparo jurídico para rodar, ex-permissionários têm organizado manifestações em pontos estratégicos, buscando pressionar o governo a reverter a decisão. O objetivo do grupo é forçar uma “brecha” legal que permita o retorno das atividades, utilizando como principal argumento a demanda reprimida em horários de pico.
Embora os manifestantes tentem pintar o sistema RTO como essencial, a memória do usuário aponta para uma realidade distinta. Por anos, o serviço prestado por essas vans e micro-ônibus foi alvo de pesadas críticas. A precariedade era a regra: veículos com manutenção duvidosa, descumprimento sistemático de itinerários e uma direção frequentemente agressiva que colocava em risco passageiros e pedestres.
O regime de RTO, que deveria ser um suporte complementar, muitas vezes operava de forma predatória, priorizando apenas os trechos mais lucrativos das linhas (“queima de rodo”) e abandonando os passageiros de bairros periféricos. A falta de integração tarifária plena e a ausência de padrões de conforto básicos — como ar-condicionado e acessibilidade — tornaram o sistema obsoleto diante das exigências de mobilidade de 2026.
É necessário reconhecer, contudo, que a saída abrupta desses veículos gerou um “vácuo” operacional nos primeiros dias de janeiro. A retirada da frota complementar expôs a fragilidade das empresas concessionárias, que inicialmente não conseguiram suprir a demanda com ônibus convencionais. O resultado foi um início de mês marcado por pontos superlotados e intervalos dilatados, gerando transtornos legítimos à população.
Este gargalo inicial serviu como um alerta às autoridades de que a fiscalização sobre as empresas de ônibus deve ser tão rigorosa quanto foi a extinção da RTO. O passageiro trocou ser refém de uma escolha entre o “serviço ruim” da RTO e a “falta de serviço” das concessionárias.
A pressão exercida pelos antigos operadores da RTO através de paralisações e bloqueios ainda permanece. Mesmo, que a solução para os problemas atuais do transporte não reside no retorno de um sistema despadronizado e ineficiente, mas sim na exigência de que o governo e as empresas vencedoras das licitações ampliem a frota e garantam a regularidade que o cidadão precisa.




